Verbo e Devaneio. Além.
18.1.07
CONTARDO CALLIGARIS
Para que servem as ficções?
A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim
ESTÁ EM cartaz "Mais Estranho que a Ficção", de Marc Forster (com um extraordinário roteiro de Zach Helm). Se você lê romances e contos, se freqüenta cinemas e teatros, se, em suma, a ficção tem alguma relevância na sua vida, não perca o filme.
É a história (engraçada e terna) de um auditor de impostos que, de repente, começa a ouvir a voz misteriosa de uma narradora: sua vida, aparentemente insignificante, é o tema de um romance, do qual ele é, obviamente, o protagonista.
Saí do cinema pensando no lugar que as ficções ocuparam e ocupam na minha vida.
Cresci numa família em que ler romances e assistir a filmes, ou seja, mergulhar em ficções, não era considerado uma perda de tempo. Podia atrasar os deveres ou sacrificar o sono para acabar um capítulo, e não era preciso me trancar no banheiro nem ler à luz de uma lanterna.
Meus pais, eventualmente, pediam que organizasse melhor meu horário, mas deixavam claro que meu interesse pelas ficções era uma parte crucial (e aprovada) de minha "formação". Eles sequer exigiam que as ditas ficções fossem edificantes ou tivessem um valor cultural estabelecido. Um policial e um Dostoiévski eram tratados com a mesma deferência.
Quando foi minha vez de ser pai, agi da mesma forma. Por quê?
Existe a idéia (comum) segundo a qual a ficção é uma "escola de vida": ela nos apresenta a diversidade do mundo e constitui um repertório do possível. Alguém dirá: o mesmo não aconteceria com uma série de bons documentários ou ensaios etnográficos? Certo, documentários e ensaios ampliam nosso horizonte. Mas a ficção opera uma mágica suplementar.
Tome, por exemplo, "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini. A leitura nos faz conhecer a particularidade do Afeganistão, mas o que torna o romance irresistível é a história singular de Amir, o protagonista. Amir, afastado de nós pelas particularidades de seu grupo, revela-se igual a nós pela singularidade de sua experiência. A vida dos afegãos pode ser objeto de um documentário, que, sem dúvida, será instrutivo. Mas a história fictícia "daquele" afegão o torna meu semelhante e meu irmão.
Esta é a mágica da ficção: no meio das diferenças particulares entre grupos, ela inventa experiências singulares que revelam a humanidade que é comum a todos, protagonistas e leitores. A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim.
Há uma outra idéia, menos comum, segundo a qual a vida da gente pode (e talvez deva) ser vivida como uma narração. Não tanto para que ela se transforme num roteiro mirabolante, mas para que nosso cotidiano (por humilde e banal que seja) assuma uma relevância e uma intensidade que o tornem digno de ser vivido. Não fica claro? Faça a experiência: passe três horas de seu dia acompanhando suas ações de sempre, seus pensamentos, seus encontros e suas rotinas com uma narração mental detalhada, como se você fosse o protagonista de um romance que está sendo escrito enquanto você age. Que o resultado seja um atormentado monólogo interior ou uma seca descrição, de qualquer forma, seu mundo (externo e interno) será transformado.
Se você prolongar a experiência (redigindo um diário, em forma de blog ou num caderno, pouco importa), a narração passará a comandar sua vida: aos poucos, suas escolhas serão decididas em função do texto que você está escrevendo. Critérios estéticos ("como fica isso na história?") acabarão se misturando com os critérios éticos pelos quais, até então, você se norteava.
"Viva sua vida como se ela fosse o objeto de um romance" é um imperativo moral estranho e eficiente, embora nem sempre seguro (e às vezes, aliás, francamente perigoso). Num momento do filme de Marc Forster, o protagonista aceita que a narradora escreva sua morte (e o condene, portanto, a morrer), pois esse parece ser, naquela altura, o desfecho adequado da história. Essa atitude do protagonista leva a escritora a observar que, na verdade, a gente deveria preservar a vida de um homem que é capaz de aceitar a morte para que sua história possa ser contada da melhor maneira possível. É um pequeno paradoxo (ético ou estético, difícil dizer) que merece reflexão.
Enfim, se perpetuei e transmiti o respeito de meus pais pelas ficções é porque elas me parecem ser a maior e melhor fonte não de nossas normas morais, mas de nosso pensamento moral.
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21.11.06
Namoro proibido acaba com morte de casal Menina de 13 anos e professor de piano, de 31, foram achados baleados em motel de RS; cada um estava com um revólver
Polícia apura 2 hipóteses: os dois cumpriram pacto de morte ou o professor matou a aluna depois de persuadi-la e se suicidou
LÉO GERCHMANN
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
Um romance proibido entre a estudante Gabriela Muratt, 13, e seu professor de piano, Marcos Maronez Júnior, 31, terminou anteontem, em Porto Alegre, com a morte dos dois, a tiros, em uma cama de motel.
Estudante da oitava série do colégio Leonardo da Vinci, de classe média alta, Gabriela estudava piano com Maronez há pouco mais de um ano, no Conservatório de Música 24 horas, da qual o professor era dono e onde estudam 80 alunos.
Gabriela estava desaparecida desde as 14h de sexta-feira. Foi encontrada pela polícia com Maronez, às 10h de anteontem, no motel Atenas (zona leste de Porto Alegre). Em posição sexual e baleados na cabeça, cada um segurava um revólver. Levados ao Hospital São Lucas, não resistiram aos ferimentos. Gabriela morreu na manhã de anteontem e Maronez no final da tarde do mesmo dia.
De acordo com a delegada Eliete Rodrigues, há duas hipóteses para o caso: os dois cumpriram um pacto de morte -anunciado em cartas deixadas no motel- ou o professor matou a aluna após persuadi-la e se suicidou em seguida.
Além das cartas em que falavam de seu romance, os dois deixaram no quarto do motel inscrições nas paredes -feitas com chocolate- com seus nomes e frases não divulgadas.
Investigação
O diretor do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente, delegado Paulo de Tarso, disse que a investigação está sob sigilo desde ontem.
Sobre a entrada do casal no motel, disse que ""essas casas de hospedagem não costumam exigir documentos". "A moça tinha compleição física bastante avantajada [cerca de 1,80m] e se passou por mais velha."
O casal chegou ao motel no final da tarde de sábado e pediu que fosse acordado às 8h de domingo. Nesse horário, Maronez atendeu o telefone e disse que estavam de saída. Duas horas depois, funcionários foram ao quarto para checar o que ocorria. Com o silêncio, entraram e acharam os dois agonizando.
De acordo a Polícia Civil, antes de ir ao motel, Maronez estava hospedado em um hotel no centro de Porto Alegre, onde chegou sozinho, no final da tarde de quinta-feira, após discutir com a ex-mulher, com quem tem um filho de dois anos.
Maronez chegou ao hotel de táxi. Pagou R$ 88 por duas diárias. Depois saiu e voltou em uma moto, que ficou estacionada na garagem do hotel -a polícia a retirou apenas anteontem.
A polícia já procurava Maronez desde a tarde de sexta-feira, quando a adolescente desapareceu de casa.
Endividado, Maronez era conhecido por buscar a perfeição na música -estudava cerca de 14 horas por dia e tocava piano, guitarra, bateria e baixo.
Em sua página no site Orkut, no item "quem sou eu", ele dizia: ""Um verdadeiro especialista na arte de escapar dos perigos existentes nesse mundinho e um verdadeiro sábio na hora de fazer a escolha ao se entregar à fatalidade na hora certa."
Os dois foram enterrados no mesmo cemitério, o Jardim da Paz. Gabriela foi enterrada pela manhã, e Maronez, à tarde.
1.10.06
Desastre no ar
Mortos devem chegar a 155 no maior acidente aéreo da história
Equipes de resgate só viram "corpos e mais pedaços de corpos, nada além disso", diz Infraero
Jato menor sumiu das telas do controle aéreo por pane, mudança de rota ou falha no radar
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DA REPORTAGEM LOCAL
DA AGÊNCIA FOLHA
É "remotíssima" a chance de haver sobreviventes entre os 149 passageiros e seis tripulantes que estavam no vôo 1907 da Gol que caiu anteontem no Mato Grosso, segundo a Aeronáutica. O Boeing 737-800 saiu de Manaus rumo ao Rio, com escala em Brasília, e caiu após um incidente não esclarecido com um jato executivo Legacy, fabricado pela Embraer.
O Legacy, com sete pessoas a bordo, entre eles dois repórteres do "The New York Times", conseguiu pousar na base aérea de Cachimbo, no sul do Pará.
A FAB (Força Aérea Brasileira) e a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) informaram que não seria possível afirmar se alguém saiu vivo porque as equipes de resgate não tiveram "acesso total" ao local.
O presidente da Infraero, o tenente-brigadeiro José Carlos Pereira, é menos cauteloso e diz que é "impossível" alguém ter sobrevivido: "As equipes da Força Aérea já percorreram toda a área do acidente sem encontrar nenhum vestígio de sobrevivência possível. Apenas corpos e mais pedaços de corpos, nada além disso".
Se confirmadas as 155 mortes, será o maior acidente aéreo da história brasileira. O desastre recordista até então ocorreu em 1982. Um avião da Vasp caiu no Ceará, com 137 mortes.
Os destroços do Boeing foram localizados ontem pela manhã na fazenda Jarinã, no norte de Mato Grosso, na fronteira com o Pará. A Infraero disse que há indícios de que o avião caiu praticamente na vertical, a mais de 400 km/h, até o seu nariz se chocar com o solo.
Por causa da mata fechada, a equipe da FAB só desceu no local às 13h30 de ontem, quase 21 horas após o horário estimado do acidente. Com a dificuldade de atravessar a mata a pé, dois militares foram lançados de pára-quedas e outros desceram de helicópteros por meio de rapel para buscar sobreviventes. Índios caiapós também ajudam na busca.
A remoção de corpos deve começar hoje. Eles devem ser encaminhados para Brasília.
A causa do acidente ainda é um mistério. Os sete ocupantes do Legacy, todos norte-americanos, permaneciam incomunicáveis, e o teor do depoimento dos dois pilotos à Aeronáutica não havia sido divulgado.
O acidente ocorreu a 37 mil pés -ou 11.200 metros. O jato Legacy deveria, em tese, estar nesta rota com destino aos Estados Unidos, e o da Gol, 300 metros abaixo -a 36 mil pés. As rotas funcionam como pistas virtuais no espaço aéreo, com "faixas" de ida e vinda com alturas diferentes.
As torres do Cindacta (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo) em Brasília não detectaram a possibilidade de choque entre os aviões porque o Legacy desapareceu dos radares. O desaparecimento do jato no radar pode ter ocorrido por três motivos:
1) Mudança de rota;
2) Pane no sistema elétrico da aeronave;
3) Falha de um dos radares da Aeronáutica. O céu estava carregado de nuvens no momento do incidente.
A Anac não confirma que houve colisão entre os dois aviões -classificou a possibilidade de "especulação".
O avião da Gol começara a operar havia 17 dias e tinha só tinha 234 horas de vôo. Foi o primeiro acidente com vítimas envolvendo o modelo 800 do Boeing-737, a versão mais moderna do avião comercial mais vendido do mundo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou nota lamentando as mortes e decretou três dias de luto nacional.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0110200601.htm
22.9.06
Daqui. Só para assinantes UOL ou FSP.
CLÓVIS ROSSI
Como se faz uma quadrilhaSÃO PAULO - Oded Grajew, empresário que foi dos primeiros da espécie a aderir ao lulo-petismo, bem antes do poder, matou faz tempo a charada do apodrecimento do PT e, com ele, do governo Lula. Em depoimento para livro de duas jornalistas inglesas sobre a crise petista (a primeira), Oded lamentou que, para a cúpula partidária e para o pessoal do aparato burocrático, a política tenha se tornado "maneira de ganhar a vida".
Completou: "Alcançar o poder se converte no mais importante, e, para isso, as pessoas estão dispostas a fazer concessões éticas. Em outras palavras, se desejo estar no poder, necessito dinheiro, e, se não posso conseguir os fundos legalmente, então o farei ilegalmente".
Outro "lulista", aliás o novo coordenador de campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, por sua vez, queixou-se, no mesmo livro, de que trabalhou de graça como secretário de Relações Internacionais do PT durante dez anos, ao passo que "um membro de uma tendência de esquerda [do PT] ganhava R$ 7,2 mil por mês", mais do que Garcia como assessor para assuntos internacionais de Lula. São essas "boquinhas" que fazem compradores de dossiê ou praticantes de outras delinqüências. Freud Godoy, mero segurança, usou o PT (e o governo Lula) como meio de alpinismo social, a ponto de morar em um apartamento de R$ 500 mil. Valdebran Carlos Padilha da Silva, por sua vez, mora em um condomínio de luxo em Cuiabá. José Lorenzetti, enfermeiro, virou diretor de banco federal.
Para manter as "boquinhas", é lógico que fariam de tudo. Assim como as pessoas que assessoram, todas com cargos eletivos. Para manter o poder, fazem o diabo, contando com o acobertamento do chefe, que, mesmo quando os demite, acaricia-os depois. Foi essa cultura que gerou a "quadrilha" antigamente chamada de Partido dos Trabalhadores.
crossi@uol.com.br
27.7.06
GUERRA NO ORIENTE MÉDIO
Assistencialismo é arma do Hizbollah entre pobres
Financiamento iraniano de US$ 40 milhões sustenta os serviços negados pelo Estado
Grupo xiita dá escola, água, emprego, médico e pensão; estrutura inclui também emissoras de TV e rádio e sistema de "inteligência"
MARCELO NINIO
ENVIADO ESPECIAL A BEIRUTE
Ibrahim Ali Mohsen, 74, mal teve tempo de calçar os sapatos quando os mísseis israelense começaram a cair em sua cidade, Tiro, no sul do Líbano. Deixou para trás a casa e tudo o que tinha. Agora, não faz idéia se ela continua de pé e se seus vizinhos estão vivos. Dormindo há seis dias sobre folhas de papelão no chão de uma praça de Beirute, ele mantém inabalável sua admiração pelo grupo xiita Hizbollah. "Foram eles que deram emprego a meu filho e me ajudaram a conseguir os remédios para a pressão alta", diz.
Ali Mohsen é um dos milhares de beneficiados pela ampla rede social do Hizbollah, que explica o apoio popular que o grupo possui sobretudo no sul do Líbano. Isso pesa mais que a atuação militar contra Israel.
A rede de proteção, que rompe as fronteiras sectárias tão determinantes nas tensões que deflagraram a brutal guerra civil no país (1975-1990), também ajuda a entender o poder do "Estado dentro do Estado", mantido pelo chamado Partido de Deus (significado da expressão "Hizbollah").
Sem barreiras
"Esse aparato social, que atende milhares de pessoas carentes com escolas, ambulatórios, creches e agências de emprego é um dos principais pilares da força do Hizbollah no país. É nesse pilar clientelista que o grupo encontra amparo para a simpatia popular que lhe garante a continuidade de suas atividades militares", diz Ahmad Moussali, da Universidade Americana de Beirute.
O grupo mantém no sul do Líbano uma estrutura quase autônoma em relação ao governo libanês. É seu reduto eleitoral, mas as ações do Hizbollah têm se estendido a Beirute e a outras cidades do norte nestes dias de conflito. Por meio de suas fundações sociais e usando o apelo da "unidade libanesa", o grupo tem conseguido arregimentar voluntários de todas as comunidades, rompendo as fronteiras xiitas. "Temos aqui sunitas e cristãos, tanto maronitas quanto armênios, todos ajudando os refugiados", conta o universitário cristão Hanibaael Naim, 23, voluntário em uma fundação do Hizbollah que tem ajudado desabrigados.
As atividades civis do Hizbollah impressionam pela amplitude e disciplina. Não há outro partido no Líbano com tantos recursos e uma estrutura tão organizada. Dono de uma emissora de TV, a Al Manar, e outra de rádio, Nur (ambas as palavras se referem a "luz"), ele mantém um sistema de coleta e divulgação de informações com requintes que lembram um serviço de inteligência. Yasser Akkaoui, editor da revista de negócios "Executive", diz que ficou impressionado com essa estrutura ao visitar um dos prédios do grupo, há alguns anos.
"Eles têm uma equipe de centenas de pessoas, na maioria mulheres, somente para coletar informações publicadas pela imprensa mundial. Em todos os idiomas, inclusive em português", diz Akkaoui. "Cada departamento cuida de um continente. Depois de compilados, os dados são cruzados em um programa de computador. A cúpula do grupo crê ser possível prever as ações do inimigo pelas notícias que ele divulga, espécie de balões de ensaio."
"O segredo está nos recursos. Com uma mesada do Irã que pode chegar a US$ 40 milhões anuais, fica bem mais fácil para uma organização ter esse tipo de sofisticação", diz ele.
Se as armas são cruciais para dissuadir qualquer tentativa do governo de desarticular seu poder independente, o "Estado dentro do Estado" também é alimentado pela ausência de serviços prestados pelas autoridades oficiais, principalmente à população xiita, que constitui quase 40% dos libaneses.
"O Hizbollah preenche um vácuo deixado pelo governo, fornece água limpa, empregos e assistência médica, aos xiitas e a qualquer pessoa negligenciada", diz Hillel Hassan, da Universidade Americana de Beirute, que compara a situação a áreas, como as favelas brasileiras, onde os traficantes assumiam esse mesmo papel.
Daqui.
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